Da série: Meu querido Diário – Dia 1

diario

Querido Diário,

Desde janeiro passei a ler compulsivamente. Estou mais tempo introspectiva também, e ainda não sei, se isso é bom ou ruim. O fato é que há muito tempo venho diversificando tarefas, planos, projetos, sonhos, de maneira à quase anular a minha presença de mim mesma; o que me faz atualmente, querer estar comigo a todo instante.

Fico comigo no quarto. Vou comigo ao parque, ao trabalho, ao restaurante. Me levo pra curtir o pôr-do-sol em lugares altos e de difícil acesso, medito e choro.

E aí, você pode estar pensando: “Mas, você parece tão feliz, sempre rindo, contando piadas”! Pois é, até a felicidade precisa ficar triste às vezes para nos ensinar a gratidão e a simplicidade.

Durante muito tempo sofri de fobias, ansiedade, pânico. Monstros da infância que conviveram comigo durante muitas fases, e, que vez por outra, sentem saudade da minha presença.

Muitas dessas sensações brotam no silêncio da madrugada. De uma ausência-presença rara de algo que não foi ou que pode vir a ser. E então eu choro! Ás vezes até soluço, sem saber muito bem de onde a dor vem e pra onde ela vai. Mas, quando ela sai, transbordando dos olhos e dos poros, sinto que o estado meditativo volta me reequilibrando e harmonizando o recente vazio da plenitude de existir.

E fico lá, madrugada à dentro, pensando em nada, apenas olhando para as janelas dos prédios vizinhos que se acendem e apagam na noite da insônia paulistana.

Ainda, há muitas coisas das quais não consigo me desprender. Esperanças vazias de relacionamentos desgastados, metas de ginástica inalcançáveis, surtos de medo, a indisposição ao novo e a ressaca do cotidiano.

Venho pensando sistematicamente que devo ir à Itália. Inclusive, já assisti a todos os filmes que envolvem jornalistas solteiras na Toscana! Tenho ainda, uma coleção infindável de referências culturais, gastronômicas e históricas para aproveitar os dias e as noites na bela Florença de Michelangelo.

Sinto também, que posso estar próxima de querer me envolver em um relacionamento estável.Sério! Mas confesso, que ainda sinto uma certa dificuldade em confiar nessa possibilidade, principalmente porque a liberdade que eu dou, nem sempre é a que eu quero, tampouco o inverso. Amar para mim é sempre viver nessa contradição entre o que a mente acredita e o que o coração precisa.

E fico pensando: Do que eu preciso? Quem eu quero que entre na minha vida? Para quem eu vou poder, sem ressalvas, abrir a minha casa-coração novamente?

A mente vai e vem repleta de dúvidas e lampejos poéticos. “Não sei para onde estou indo, mas estou seguindo o meu caminho”, diria Raul Seixas.

Reflito ainda,  que deveria ter feito um planejamento decente para este ano. Ter estabelecido metas específicas, ter contratado um coach para apoiar nos desafios mais densos, mas resolvi viver, dia após dia, como qualquer pessoa frequentadora desses espaços que cuidam das patologias anônimas.

“Você precisa perceber na importância das pausas, Yve. Na espera. Na paciência que antecede as conquistas. Você já plantou, semeou o terreno que queria, agora não há mais nada a fazer, a não ser esperar que a semente que você plantou floresça”,  afirmou a minha guru-cartomante ao traduzir o conselho do arcano O Enforcado na minha última consulta.

Uma vez eu li, que para mudarmos um hábito é preciso seguirmos novas rotinas, novas formas de viver o dia a dia durante 21 dias ininterruptos. Mesmo que no começo seja forçado.

Tive a prova da eficácia dessa teoria na arrumação de final de ano que realizei no meu quarto. Resolvi mudar tudo, principalmente, porque nunca encontro nenhum objeto que eu esteja procurando. Minhas chaves, meus livros, sapatos, roupas, xícaras de café sempre estiveram brincando de esconde- esconde comigo, como um circuito dinâmico  de ser e desaparecer.

Para isso, resolvi estudar o feng shui e transformar a minha realidade caótica em um espaço de prosperidade definitiva! Avaliei todas as possibilidades que o baguá [bússola chinesa] me ofereceu e parti para a ação e manutenção da reforma. Pintei as paredes, organizei livros e gavetas e sinto há que a persistências nos 21 dias, que já estão durando pouco mais de dois meses,  surtiram efeito.

Hoje, certamente posso habitar e respirar melhor no espaço onde mais gosto de estar comigo.

Continua…

Yve de Oliveira

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